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Tratamento domiciliar em pacientes com sequelas da Covid-19

by viviejaque

Os pacientes pós-Covid recebem tratamento multidisciplinar de terapia ocupacional

Raphael Argenta

Com mais de um ano de pandemia causada pelo novo coronavírus, com avanços tecnológicos na produção de vacinas e novas descobertas sobre a Covid-19, ainda há muito para se aprender sobre a doença que já contagiou mais de 170 milhões e matou mais de 3 milhões de pessoas no mundo todo. 

Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou para os efeitos em longo prazo da Covid-19. Segundo a entidade, pessoas que passaram longos períodos lutando contra a doença no hospital precisam de cuidados continuados e prolongados. 

As sequelas deixadas pela doença, de acordo com o novo resumo de políticas da OMS e do Observatório Europeu de Sistemas e Políticas de Saúde, atingem uma a cada dez pessoas. Em casos graves, a situação piora, deixando sequelas em sete a cada dez pacientes hospitalizados por Covid-19, mesmo depois de cinco meses de alta médica, conforme uma pesquisa feita pela Universidade de Leicester, no Reino Unido, que analisou cerca de mil pessoas internadas entre março e novembro de 2020. 

O cuidado em home care atua na reabilitação desses pacientes. No entanto, o tratamento varia muito, de acordo com as sequelas deixadas pela doença e o grau de dependência do paciente, podendo ser desde um atendimento pontual de terapias até o internamento domiciliar com enfermagem 24 horas.

É possível identificar dois perfis de pacientes pós-Covid-19 em atendimento domiciliar: os casos graves e os leves e moderados. Pacientes com casos graves, que ficaram hospitalizados por um longo período, podem apresentar maior limitação, com quadros de polineuropatia, fraqueza, formigamento e dor, causados pelo período sedado e pela imobilidade no leito. Pacientes submetidos a longos períodos em ventilação mecânica, com lesões pulmonares extensas, como a Síndrome da Angústia Respiratória Aguda (Sara), podem ter sua performance para atividades de vida diária reduzidas, gerando uma dependência maior. 

Já nos casos moderados e leves, em geral, os pacientes sentem uma fadiga crônica, ou seja, um cansaço ou uma dispneia (falta de ar). Dependendo do grau, podem se sentir cansados para as atividades mais simples, como se vestir, necessitando de auxílio. Para esses pacientes, o tratamento consiste em reabilitação. O período hospitalar foi só o começo; o processo de recuperação pode durar meses. Nesses casos, entram em ação as multiterapias, como terapia ocupacional, fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição e psicologia.

A fisioterapia possui papel essencial nesse processo, objetivando a reabilitação cardiovascular, pulmonar e muscular. A fonoaudiologia auxilia pacientes que têm dificuldade de deglutição, consequência de períodos longos de intubação ou traqueostomizados, alimentando-se por meio de sondas. Alguns pacientes podem apresentar um quadro de emagrecimento, necessitando de acompanhamento da equipe de nutrição para restabelecer e garantir o melhor aporte nutricional, tão necessário no período de reabilitação. Períodos de internamento prolongado estão associados a estresse pós-traumático, com maior ênfase no caso da Covid-19, pelo medo da doença, pelo isolamento, pela preocupação com familiares e amigos; nestes casos, o serviço de psicologia é indicado. 

A recuperação pode ser lenta. A média de tempo para reabilitação completa é de seis meses, o que varia muito, de acordo com o nível de dependência do paciente. Muitas vezes, as sequelas não permitem que o paciente volte a ter o mesmo estilo de vida anterior à doença, mas a reabilitação possibilita que se aproxime ao máximo do que era antes.

Outro aspecto importante do processo de reabilitação é a saúde mental. O paciente sai do hospital com sentimento de vitória, e tem uma longa jornada pela frente. A doença deixa marcas e a batalha contra o vírus foi o começo. Agora, é hora de lutar contra as próprias limitações.

*Gerente multidisciplinar da Lar e Saúde, empresa de atendimento domiciliar.

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